Difícil não é sentir a falta de quem nos faz falta.
É pensar no tempo que falta, no tempo que não volta e sufoca, e nas voltas da vida que o tempo nos dá. Fica a esperança de que o tempo aqui me sorria e me traga a vida de volta.
E tem sorrido...


5.12.07

Vim para ficar


Vim para ficar. Parece ser o que ela me quer dizer... Recebo-a feliz todas as noites, pela janela do meu quarto, mas de dia sou eu quem dá o primeiro passo e a visita por acasos momentos, beijando-a quando me cruzo com ela nas ruas que também cruzo. Uma relação com uma semana, quase incessantemente. Quente. E tudo começou por acaso... Eu confesso que nem fiz nada por isso. Não esperava. A verdade também é que já nem me lembro como tudo começou... só me lembro de um céu rosa vivo, mesmo antes de a ter visto de relance pela primeira vez. Se já a tinha visto mais vezes? Sim, foi logo o que pensei... E creio mesmo que sim. Bem, mas ela aproximou-se de mim logo de uma forma muito intensa - no início é sempre assim com todas as coisas que nos surgem de surpresa. Surpreendeu-me a mim e a toda a gente que me rodeia. Mas agora tudo é mais doce... sim, mais duradouro também. Tem vindo todos os dias e ficado por longos minutos. Cada vez passa mais tempo comigo e agora até já corre comigo na marginal ao final de cada dia. Por vezes fico mais feliz, outras mais triste... tem dias. Uma vez me lembro que até me chateei seriamente quando ela me incomodou sem eu querer durante um almoço de esplanada, o que me obrigou a afastar-me um pouco. Decidi-me forçosamente e disse que não a queria mais. Estava farto, pois tudo tem uma hora e um momento para acontecer. Mas depois pensei melhor e desculpei-a, abraçando-a em plena rua. No fundo, temos uma relação igual a tantas outras... Um misto de emoções. Tentativas de equilíbrio. Assim vos digo que faz hoje uma semana que o fazemos todos os dias, e hoje já é quase rotina e até estranho quando acordo e não a vejo ao meu lado. Mas sou feliz sim. E ela também, pois volta sempre depois de cada despedida e de cada beijo molhado. Sim, somos felizes.

Chuva. Faz hoje uma semana que chove em Luanda.

O sol já quase nem o recordo... não o vejo por aqui desde a mesma altura. Dizem as boas línguas que o sol e a chuva partilham uma amizade colorida, e que sempre que se juntam se amam e enchem o céu dessas cores dessa amizade. Mas é raro por aqui... Devem estar chateados. Entretanto já sei que o sol voltará em breve. Sim... vai voltar. Deixou aqui o seu calor.

3.12.07

Despertar


http://expresso.clix.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/180043



Aqui tão perto de mim. Aqui mesmo ao lado, mas para além do mal que se vê nas ruas por onde passo e do pequeno mundo que observo através da minha janela.
Isto para mostrar que Angola infelizmente ainda é igual a muitos outros países no que respeita ao respeito pelos direitos humanos.

Para vos mostrar também que o silêncio também aqui ainda é a palavra de ordem. Calar ou pagar por isso.

Por isso julguei que devia divulgar a história aqui, para que nada nem ninguém se silencie. Em respeito pela liberdade de imprensa e de opinião. Sobretudo muito respeito e admiração por quem tem a coragem de abrir para o mundo uma janela que ninguém quer espreitar.

Para o António, um grande abraço.

27.11.07

A sério? Epá...

Ontem mesmo chegou até mim esta notícia.
É. Luanda é a cidade mais cara do mundo.
E eu penso: - Mas será mesmo? Penso nisso logo de manhã, enquanto pago 3 Usd por um café no hotel, depois de uma tosta mista e de um sumo qualquer que paguei antes com 20 Usd.
Será mesmo? Mantenho esse pensamento à hora de almoço, enquanto tento comer alguma coisa à pressa no restaurante mais barato e apressado dos arredores, e onde pago também à pressa 30 Usd pela refeição. Será mesmo? À tarde não lancho e por isso não penso nisso. Mas chega a noite e janto num local mais confortável, e com mais tempo e continuo com o mesmo pensamento enquanto tiro do bolso uma nota de 50 Usd para pagar o jantar. Chego ao parque do Hotel e o segurança (- Tá seguro, chefe!) olha-me com maus modos porque lhe dou apenas 100 Kz. Contando por alto os Kuanzas que ficaram arrumados nos bolsos dos miúdos que encontro durante todo o dia, chego a contar 10 Usd. Isto tirando os jornais que não leio, mais os cafés que não tomo e a água que não compro... enfim, todo um dia de privações.
Eis que me deito à noite no meu quarto de 300 Usd e chego a uma conclusão finalmente: Luanda? A mais cara? Naaaa! Epá, vê-se logo que esta gente que faz estes estudos não percebe nada disto. Vocês sabem onde é que é caro, mas mesmo caro? Mas caro tão caro que até chateia? É em Ermesinde. Acho...

26.11.07

Fico Feliz

Sim, fico feliz. Muito feliz por saber que este meu 'cantinho' ajuda e dá alento a muita gente que vem em breve para Angola, ou mesmo a quem já anda por cá. Procurando informações, curiosidades, algum conforto ou motivação, o que é certo é que vou recebendo e conhecendo novas pessoas que, tal como eu há uns meses atrás, vêm sentir Luanda pela primeira vez. E procurando Angola, encontram-me aqui.
Hoje recebi mais um e-mail. Emocionou-me, pela escrita sentida e tremida. Pelas frustações contadas sentidas e vividas à chegada. Pelo desânimo incontido dos primeiros dias e pela ansiedade contida dos dias que virão. Pelas noites não dormidas e pela esperança sonhada de que tudo passe e melhore. Um dia. Em breve.
Arrepiei-me até, por compreender tão bem este sentir que foi também o meu quando aqui cheguei. E parece que já foi há tanto tempo... Hum... É bom sinal.
Gostei de saber que de alguma forma o meu blog pôde dar a alguém algum conforto e companhia. Alguma ajuda. Ajudou talvez a compreender um pouco os extremos que Luanda nos oferece e nos obriga a partilhar todos os dias. O bem e o mal que aqui vivem na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma casa, no mesmo momento. Ajudou talvez a ver de outra forma este mundo à minha volta. O bem que prevalece sempre sobre cada coisa. O bem que encontramos escondido atrás de cada sombra. Esse bem que só encontramos com a amizade de quem nos rodeia.
Senti sobretudo que ajudei a sentir que ninguém está sozinho neste mundo... e muito menos em Luanda. A verdade é que todos passamos pelo mesmo... embora nos possa custar de forma diferente. Mas ultrapassa-se, com o tempo. Sim, ultrapassa-se. Aprende-se a gostar. Aprende-se a viver. E o segredo é simples, muito simples. O segredo é nunca estar só. Sempre. Os amigos são o melhor bem que se pode ter aqui. De longe... são mesmo.
Por tudo isto fico feliz. Por tudo isto ganho ânimo também. Faz-me bem e dá mais sentido ainda ao que escrevo.
Por vos poder ajudar, muito obrigado a todos.

23.11.07

Life!

Meio de uma tarde com muito trabalho e muito pouca vontade. E sono. Muito sono.
Depois passa por mim esta música e tudo passa depois. Acordo, ganho ânimo. Desperto e sorrio.
Pela janela vejo o sol que brilha como nunca. Não o sinto, mas lá fora está um calor que não se aguenta. Observo a baía ao fundo, que me acalma com a sua calma beleza.
Sinto-me bem. Sabe tão bem... Como uma música nos transforma o dia, assim.

É meio da tarde. Partilho assim um pouco desta minha felicidade.

19.11.07

Fugir


Corro pela noite na marginal. Noite cedo e noite dentro. Sinto no rosto a brisa quente sempre presente no final de cada dia. Sinto no corpo molhado a chuva quente que flutua em rosa púrpura no céu. Sinto a baía no olhar ardendo, o mar olhar adentro que me inunda com todo o seu esplendor. Sinto a luz que me observa e vigia e me acompanha através da névoa que me separa dos edifícios que passo, dos carros que circulam e do olhar das pessoas que passeiam.
Eu. Pensamento presente, cortante. Vagueio. Respiração que me falta. Recuso. Penso e não quero. Apresso os meus passos e sinto que assim não penso. Não penso e fico alheio. Fico enevoado. À margem. Fujo e me ausento. Fujo de mim e consigo. Apresso os meus passos. Vejo-me distante, ao longe. Desistindo.
Depois páro. Sinto que desperto novo. Vivo. Renovado.
Entro cansado no quarto que me espera e me deito vazio ao meu lado. Noite dentro lá fora. Sorrio. Sinto que venço. Finalmente adormeço.

13.11.07

Tanto, mas tanto...

É tanto o que tenho para dizer, para contar.... Seriam precisas mais de mil palavras.
Mas afinal eu sei que apenas é necessária uma: Apaixonante!
Adorei o Lubango. Amei. A antiga Sá da Bandeira invadiu-me a alma e o coração de uma forma que nem eu sei explicar. Foi tão intensamente forte! Compreendo agora a paixão que Angola transmite, a quem aqui veio e ficou, ou a quem veio para ficar. Compreendo agora que Angola não é só Luanda, felizmente! Aliás, Luanda não é Angola. Ponto.
Mas vou começar pelo princípio: Sábado, 4 horas da manhã, Aeroporto 4 de Fevereiro em Luanda - Voos domésticos. Fico desiludido porque afinal o aeroporto nem é mau de todo. Tem sala de espera, com ar condicionado e um bar. Bom ar. Estranho, tinham-me dito tão mal! Seguiram-se aqui 4 horas de ansiedade e de sono pelo avião que só partiu depois das 8 da manhã. Outra desilusão: o avião afinal era novo!?! Assim não! Eram condições a mais. Inesperadas! Mas o destino que me esperava era Lubango. Ainda mais inesperado.
Chegamos lá a meio da manhã. Tarde. Longa se torna a espera até todos estarmos reunidos e partir enfim para uma casa que teríamos ainda de procurar... E procurámos.
Lubango fica num vale, entre montanhas. A sensação que nos dá é de que estamos em Portugal, numa vila serrana qualquer, nas Beiras. Protegido e escondido entre as montanhas, como se qualquer chegada aqui fosse uma grande descoberta para quem a encontra. Fascínio quase irreal.
As ruas largas limpas e decoradas por casas baixas e coloridas. As pessoas. As crianças brincando na rua, em mistura de cores numa única cultura. Sem raças nem distinções. Os edifícios principais, coloniais e monumentais que surgem na ampla praça da cidade, com fontes luminosas entre os arrumados passeios e as árvores de fruto. Jardins. Tudo isto me dá a perfeita sensação de que descobri, encontrei Portugal em Angola. E encontrei-me a mim mesmo também. Sim.

Chegamos enfim à casa. Encontrámo-la por fim. Enorme casa na serra. Na Senhora do Monte, com uma grande varanda sobre toda a cidade. Local de contemplação. Descanso aí a vista e também o corpo, da viagem e da ansiedade. Respiro um pouco então… de emoção. Ainda e depois. Irrealidade e liberdade.
Subimos à tarde pela serra, nove pessoas com uma “Hiace” (aqui lê-se tal e qual como se escreve) por montes e vales e rochas, até à mãe das contemplações. A Tundavala. A Tundavala é uma fenda da mãe natureza, a dois mil metros de altitude, e que nos assombra com uma visão estonteante. Vertiginosa para os sentidos. Silêncio. Calma. Religioso até… É um corte quase perfeito na rocha, a direito e a pique, por dois mil metros. Lá em baixo, muito baixo, até onde a vista pode alcançar, é o perfeito deslumbramento. O horizonte aos nossos pés, bem lá em baixo. Incrível!


O dia tornou-se curto, muito curto, com a noite que chegou apressada. Jantamos em harmonia no Huíla Café, bem no meio da cidade e respiramos mais um pouco, em quase suspiros de olhos fechados. É tão bom o nosso sentir… E a ansiedade continuava desperta em nós, por mais um dia, mais e muitos momentos de deslumbramento.
No dia seguinte seguimos cedo o caminho longo para o mar, em direcção ao Namibe. Antes paramos para redenção no Cristo Rei, que abraça toda a cidade do alto da serra. E que desejo o meu, de a abraçar também!


Continuamos depois a viagem pela estrada quase deserta, chegando pouco depois à Serra da Leba. Serpente que desce a colina em perfeita comunhão. Sim, a foto do post anterior… mais palavras para quê?
Depois da serra a estrada deserta chega ao deserto. Imponente, mesmo. Paisagem quase lunar, e bem mais perto do sol. Do céu! De mim… Beleza pura, sensação de liberdade. Vontade de estender os braços e gritar bem alto os nossos sonhos e desejos. Fascinante. Silêncio de novo, com olhos bem abertos de contemplação. Inesquecível.

Chegamos ao Namibe. Cidade calma, arrumada e limpa, bem junto à praia. Com ar de praia. Linda. Mergulhamos e bebemos um pouco mais desta sensação de estar tão longe de tudo, e ao mesmo tempo tão perto de nós. Um almoço, um passeio pelas praias ali perto, um sol que se esconde depois entre as nuvens. Um adeus de repente, um regresso prometido. Voltamos enfim ao Lubango, revisitando o deserto que o sol escolheu para dormir.
A noite trouxe as estrelas que nos fizeram companhia. Testemunhas. E tantas estrelas! O céu inteiro! A elas pedi desejos eternos, outros fugazes, mas desejos sinceros. E na varanda de casa me fui perdendo, ou encontrando, inspirando toda a cidade que dorme aos meus pés. Visão presente, em passado e futuro reunidos. Começo assim a sonhar ainda antes de adormecer. Adormeço depois a sorrir. Cansado, mas a sorrir.

Segunda-feira foi dia de regresso. Atribulado e triste pelas sensações que ficam em nós mas que se deixam de viver, assim. Não só pelo que se deixa e se viveu para trás, mas sobretudo pelo regresso a Luanda, pelo que se reencontra e que aos nossos olhos nos parece ainda mais triste e degradante. Choveu no regresso, como se Lubango chorasse o nosso adeus, tal como nós choramos a nossa despedida, como o final das emoções vividas. A vontade era de ficar… Lubango. Mão no peito, olhar no infinito. Mais umas horas, uns dias, quem sabe. A vontade é de regressar, por mais uns dias, umas semanas, talvez. A vontade real é talvez de ir e ficar. Vida inteira, quem sabe. Fica a vontade.

Sim, foram momentos vividos que ficarão em mim para sempre. Sim, foi um deslumbramento para a vida e que estará sempre presente. Sim, para sempre. Ficaria lá para sempre. Quem sabe? Só Deus sabe…

Bem, cheguei bem perto das mil palavras afinal... E voltando de novo ao resumo inicial, preciso afinal de mais duas palavras: Mágico. E Eterno.

9.11.07

Eu vou, Eu vou...

... Para o Namibe eu vou!
Rumo ao Sul mais a sul. Rumo ao sol à praia e ao deserto ali tão perto. Lubango e Namibe.
Detalhes? Não sei, confesso... Acho que vou num suposto avião pela madrugada. E com bons amigos. O resto não sei. Mesmo. Nem tenho de saber... não importa... Dizem que é esse o espírito! E eu concordo. Três dias de pura e inconsciente aventura que têm tudo para correr bem, porque tudo o que é incerto dá certo. Ah... três dias sim! E três porque é feriado na 2ª feira, pelo dia da Independência de Angola. Hum... Sendo assim, viva a Independência! Acho...
Vai ser bom, muito bom. Aguardo ansioso pelo passar das horas que faltam e espero que tardem e se demorem as horas em que estarei por lá. Muito longe de Luanda, muito perto de mim mesmo. Serei eu vivendo-me.
Depois conto as aventuras e as emoções, quando regressar bem triste pelo regresso. Quer dizer... se regressar... (piada, só).
Ah, mas sei outra coisa quanto à viagem... É que amanhã irei passar por aqui:

É lindo... não é?

6.11.07

Voltei, voltei...

...Voltei de lá! Ainda ontem estava em casa e agora já estou cá. (não sei porquê, acho que esta frase daria um espectacular refrão de uma música. Pimba).

E cheguei sorridente e estranhamente bem disposto numa linda manhã de verão. Saí radioso do simpático avião 'libanês' (?), sob um sol radiante crescendo sobre esta Luanda brilhante e limpa vista lá do alto, como nunca, ao calmo sabor das sete da manhã.
O cheiro. As pessoas. A cidade que desperta. Luanda intacta. Inspiração.
Boas vindas não tão bem vindas, pensei, enquanto encontrava algo que me mantivesse a calma e paciência necessárias para me manter de pé por três horas na chegada ao aeroporto.
Passaporte e carimbo. Carimbo no passaporte. Custa tanto assim? Três horas.
E três horas se passaram e outras duas se seguiram, tentando desbloquear na alfândega uma encomenda que trouxe comigo. Somam cinco. E taxas alfandegárias a pagar. E mais duas horas ainda no meio do trânsito infernal, para chegar ao Hotel. Somam sete.
- Welcome back!.... disse-o tantas e tantas vezes neste dia! Mas afinal que tem Luanda de bom?
Mas tem sim... Sei que tem. E vou buscando na memória as memórias que guardo de tudo o que sinto e gosto. Ou que já senti e gostei. Aqui. Prendo-me a isso e desligo do resto. É mesmo assim.
Sinto-me bem depois, e depois de dormir um pouco. Regresso enfim a esta aventura de sentidos incompreendidos, de explicações inexplicáveis. E é tão difícil explicar o sentir...
Mas é junto à praia, terminando este meu dia, que percebo. E percebo que regresso enfim, de novo. E de novo sinto que ganho alento. Força e coragem. Alimento-me disso e penso: Afinal até consigo ser feliz aqui. Mesmo assim...
Farei por isso.

18.10.07

Recordações

Último dia. Dia cinzento e de chuva que não se sente. Dia de recordações.
Faço hoje, no tempo que me vai restando durante o dia, um balanço sentido destes últimos dias. Destas semanas que aqui passei e de tudo o que senti e vivi, tentando apenas sobreviver. Apenas.
Recordo-me da praia. Dos dias das tardes de praia em Cabo Ledo e em Sangano. O sol. A beleza pura e intacta da Barra do Dande, para onde fugi por três vezes. E outras mais o faria, com tempo. A linda viagem a Porto Ambriz, ou quase, passando pelo Caxito e por estradas e aldeias e picadas incertas com rumo a praias quase desertas e paisagens de incontável beleza. A ilha do Mussulo. A liberdade. A nostalgia incontrolável de cada regresso em cada viagem.
Recordo os jantares Naquele Lugar, ao som da música quase mágica que me transporta deste lugar para outros lugares. Os petiscos lusos na Tendinha ao final do dia, onde as conversas são como as cer(v)ejas - há sempre lugar para mais uma. Lembro ainda outros jantares, inesperados e outros não, no Miami, no Ponto Final, no Embaixador, na Vila Alice e outros mais que, de tantos, não consigo mais mencionar. Os almoços de final de semana na ilha, na praia. Numa cadeira de praia. A paz.
Recordo também os momentos menos bons... A minha ausência constante nos dias mais importantes de uma vida. O meu aniversário, os casamentos dos meus melhores amigos e os aniversários de quem mais me importa na vida. Falhei. Recordo ainda o momento e a noite em que mudei de hotel muito à pressa, com as minhas coisas amontoadas arrumadas por outros. Hoje até consigo sorrir disso, é um facto. Hoje sim.
Recordo os dias de trabalho. O tempo e a paciência que muitas vezes se consome e me consome. Ainda o trabalho e outras alegrias das coisas boas e menos boas, geridas pelas expectativas. As minhas sempre baixas. As consequentes surpresas. Sim, alegrias.
Mas recordo sobretudo os amigos. Os que me apoiaram e acarinharam mesmo longe, dando-me a motivação nos momentos mais tristes. Os outros que aqui reencontrei e os que ganhei, com uma força imensurável e que nunca me deixaram sentir só. É verdade, nunca me senti só.
Hoje sinto a felicidade crescente que me tomou de assalto inesperado nestes últimos dias. Hoje conto os momentos que passaram da mesma forma que conto as horas que faltam para regressar a casa. Com a mesma alegria. Olho o passado com nostalgia e o presente em ansiedade. Constante e crescente.
Por tudo isto amanhã parto feliz. Pelo que vivi estes dias e pelo que viverei nos dias aí.
Por tudo isto, Luanda, até breve.

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