Difícil não é sentir a falta de quem nos faz falta.
É pensar no tempo que falta, no tempo que não volta e sufoca, e nas voltas da vida que o tempo nos dá. Fica a esperança de que o tempo aqui me sorria e me traga a vida de volta.
E tem sorrido...


Mostrar mensagens com a etiqueta Viagens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viagens. Mostrar todas as mensagens

8.4.08

Beleza Interior

O fim-de-semana grande proporcionou-nos uma viagem em grande de três dias rumo ao incerto desconhecido: a província de Malange, terra da palanca negra gigante, das quedas de Kalandula e das pedras altas de Pungo Andongo. Para muitos, o berço da nação Angolana.

Cedo partimos de Luanda, com tempo e com chuva ao romper da aurora. Pela frente esperava-nos uma viagem de mais de quatrocentos quilómetros e com quatrocentos mil buracos na estrada. Ou mais... Estranhamente, ou não, pareceu-me até que atingimos esse número ainda antes de sair da cidade. Com o sol por companhia, o pó de Luanda cede lentamente seu lugar à estrada de pó e ao verde da planície, e a confusão de casas amontoadas transforma-se aos poucos em simplicidade de casas dispersas. Sair da cidade teve também como consequência um furo em uma das rodas de um dos nossos jipes – o meu, claro. Pela primeira vez tive um furo! Incrível... E chato. Mas não sei porquê, parecia-me que este primeiro azar seria um sinal de sorte. Sorri à chuva intensa que veio ajudar e uma hora mais tarde (experimentem substituir uma roda de uma pick-up com um macaco de um automóvel ligeiro...) seguimos de novo viagem.
A paisagem é linda. Mesmo. Verde planície que abraça a estrada com desejo de se mostrar. O casario se mostra também aos poucos, ora destruído ou em destruição. Incógnito. O caminho torna-se numa viagem à nossa história, à guerra e ao tempo presente de Angola, numa mistura de deslumbramento e desencanto. Curioso como por entre o pó da estrada e o meio dos destroços nas povoações por onde se passa se descobre destruída a nossa feliz presença e se sente a presença fria da guerra ainda quente. E esta destruição toca-nos, como se estivéssemos numa visita por um museu vivo que emerge aos nossos olhos como poeira que nunca assenta no chão.



Almoçamos bem no Cacuso, a cerca de oitenta quilómetros do nosso destino final. O nosso olhar que tanto se prendeu outrora na beira do caminho puxou-nos agora ali para bem perto, até uma enorme igreja em renovação. Quase Sé e único edifício em renovação que, mesmo ainda sem tecto, já desponta a curiosidade futura pela sua incrível beleza e imponência. Naquele lugar sagrado também nós nos tornámos curiosidade, aos olhos de quem passava e nos via ali, ou de quem ouvia nossas vozes cantando e ecoando na nave daquela igreja.
Chegamos a Malange já era noite. Desde o Cacuso até à capital da província (os tais oitenta quilómetros) fomos tentando encontrar uma estrada por entre os buracos que nos apareceram pela frente. Em vão. Foi um sacrifício para nós e para os jipes fazer este bocado do percurso, mas de tão ansiosos que estávamos de chegar ao hotel e descansar um pouco da viagem, sorrimos enfim por ver as luzes de Malange ao longe. Chegámos mesmo.

Tínhamos quartos reservados na casa dos horrores de Malange... perdão: no Hotel Gigante. Azar, ou apenas destino, não havia mais quartos vagos em nenhum outro hotel de Malange. Não vou alongar-me muito a descrever este antro, pois não merece nem publicidade negativa. Aliás... chamar àquela espelunca de hotel já é um autêntico crime, e de gigante só mesmo as baratas. Merece uma passagem... bem ao largo.

Dia 2. Acordámos do pesadelo (quem conseguiu dormir um pouco) e cedo deixamos a cidade de Malange rumo às quedas de Kalandula. O percurso fez-se em constante deslumbramento por entre os buracos da estrada e muitas paragens para contemplar e gravar tantas imagens de rara e enorme beleza. O enorme capim cortado pelas águas de um rio que serpenteia pela planície e que sob ela passa várias vezes, e pelas sanzalas junto à estrada, onde nascem mais olhares de crianças por cada carro que passa. Chegamos enfim a Kalandula. Uma pequena e acolhedora povoação situada no alto de um planalto, imponente como rainha que do seu trono observa suas terras ao longe e bem ao longe de tudo. Conserva ainda algumas marcas do colonialismo, nas casas, nas igrejas e nos próprios costumes da terra, que tem simpatia como sinónimo. Chegamos logo depois às quedas de Kalandula. Duque de Bragança eram seu nome ancestral, e acredito que encontrei a razão quando as descobri de perto e as encontrei majestosas e incrivelmente reais. As segundas maiores quedas de água de todo o continente africano, com cerca de 100 metros de vertiginosa altura, são absolutamente indescritíveis.



Ali ficamos todo o dia que nos resta, em quietude sobre a água que cai a nossos pés e sob a chuva que se abate sobre nós, ambas água em queda constante. Fiquei inebriado com a leveza e transparência da água que cai, com uma força tal que nos ensurdece os sentidos e nos deixa mudos e sós. Abismados.
Regressamos já de noite animados para o desânimo do hotel em Malange. O cansaço do dia e da aventura passada deixa-nos dormir tranquilos nessa noite. Uma ultima noite de sono, num hotel onde, apesar do receio em fechar os olhos, sentimos que é o melhor que temos a fazer.

Dia 3. Nunca me senti tão feliz de fazer um check-out num hotel. Até dinheiro nos roubaram nessa altura, mesmo à frente dos nossos olhos... Mas a verdade é que estávamos livres de um pesadelo, e prontos para mais um dia de aventura que, apesar de ser o último e de marcar por isso o inadiável regresso a Luanda, teria muito ainda para viver e contar. O destino mais próximo: as pedras negras de Pungo Andongo. Chegando ao Cacuso, onde parámos de novo mas desta vez para visitar o mercado (muito) local, viramos para sul rumo ás Pedras Negras. Vêm-se ao longe, como se estivessem à distância de braço e quase as pudéssemos tocar. Mas o caminho, esse, seria bem mais longo do que parecia...



A picada estende-se como um tapete até ao coração das pedras, esburacado e enlameado, é certo, mas comparativamente melhor do que a estrada que deixámos para trás. A certo ponto, já bem junto às naturais muralhas de pedra, viramos para uma outra picada que nos leva até ao seu interior, à povoação de Pungo Andongo. O caminho parecia impossível, sem rasto ou marca de qualquer passagem anterior. O capim escondia completamente a estrada e só se abria para nós ao passar, como um abraço de boas-vindas. A terra e a lama ora se tornava em desfiladeiros de água e de pedras, ora em crateras por onde nunca julguei que um dia passaria um carro.



Chegamos a Pungo Andongo. Uma povoação escondida no seio das pedras altas, e que nos faz logo pensar que foram as próprias rochas que nasceram em sua volta como muralha para a proteger do resto do mundo. Três ou quatro casas, uma igreja em ruínas, um posto médico e uma escola renovada... quase como uma miragem impossível... como é possível existir vida ali? Mas existe.
Compreendi que ainda se pode encontrar em Angola a harmonia entre o homem e a natureza. O sentimento de protecção divina, de misticismo em todo o seu esplendor. Local de história e de estórias, de lendas de rainhas, de batalhas e de conquistas, de plantações de café e de trabalho na terra. Refúgio de vida enriquecida por todo um passado que aqui ainda está bem presente e que cresce em vivências de outras histórias. Local que não se esquece e que nos conquista o coração quando através dele subimos lá no alto e vemos tudo o nada que é tanto e que existe à sua volta. Sem palavras, só silêncio e pedra e um grito que ecoa e nos chega suavemente de volta ao coração.


Foi o local mais belo que encontrei até hoje em Angola. Talvez o mais belo e puro de tudo o que já encontrei em vida e em todos os lugares por onde passei. Difícil de superar pela sua beleza sagrada e que nos traz a paz à alma, como uma prece que ali é ouvida e tão gentilmente concedida. Senti ali que estive para lá das nuvens, e bem mais perto do céu.

Já a lua ia bem alta quando chegamos a Luanda. Cansados, mas com um brilho no olhar pelas imagens que trazemos connosco em constantes e doces lembranças.
Foi com um feliz pensamento de regressar um dia com mais tempo que adormeço. Nessa noite sonhei que voava sobre as pedras de Pungo Andongo e que deslizava depois nas águas de Kalandula, em serenidade e calma como uma criança renascida. Tivesse eu asas para lá ir sempre que pudesse…

Mas em Angola as coisas mais belas são aquelas que o homem não consegue nunca destruir: água que cai e pedra que fica. Sei por isso que estes dois elementos vivos da natureza ficarão para sempre, tal como ficaram dentro de mim, em eterna recordação de momentos e de amizades vividas.

24.3.08

Águas Passadas


Páscoa. Cumpri feliz a tradição que se cumpre por esta altura da minha terra natal e fui também passar as àguas. Não o fiz propriamente como Moisés, pois não tenho, infelizmente, esse poder nem mandamento. Mas a vontade era essa: abrir um pequeno trilho através do imenso mar, e seguir caminhando, em passos rápidos, a caminho da minha aldeia por estas alturas do ano. Até que tentei... mas não deu: apenas o consegui com o pensamento... Acho que é porque estou em Angola afinal... e vendo bem as coisas, já cruzei o oceano e cheguei à minha terra prometida. Aqui. Por isso digo apenas que fui até junto do mar, passar o fim-de-semana. Apenas para viver e recordar. Apenas para estar mais próximo, por breves momentos.

Ficámos a sul, na praia de Sangano, por dois dias e uma noite. Por dois dias cheios de sol e por uma noite cheia de luar, com a lua deslizando misteriosa e ardente pelo céu, como um foco de luz que nos ilumina em pleno palco.
Artistas. Montámos nossas tendas no final do dia, enquanto se montava o cenário da noite e do mar atrás de nós. Seguiu-se um óptimo jantar no Pirata, o resort ali mesmo ao lado que serviu para nós como autêntico porto de abrigo para as necessidades básicas: comer, beber, e seus derivados.

Depois foi o acto final, concluído com aplausos em apoteose: um banho de mar à meia noite, assistindo à dança de carangueijos por entre as brancas ondas beijando a areia em suaves e borbulhantes carícias. Eram reflexos de lua em movimento, numa autêntica festa da espuma. E nós éramos ali apenas sombra, seres estranhos invadindo esse rito natural de todas as noites. Mas o mar logo nos convidou a entrar, mesmo sem termos convite. A lua dava-lhe cor e calma, luz e alma, ao mar e a nós mesmos, e fez-nos assim sentir parte viva e integrante deste magnífico palco que é a mãe natureza.
Nesta Páscoa cumpri feliz a tradição e passei as águas mesmo aqui em Angola. Passei as águas e deixei para trás todas as águas passadas.

25.2.08

Mais...

Muitas vezes sinto que acabo por me repetir...
É que tudo me parece mais do mesmo: beleza rara e infinda. A verdade é que me sinto fascinado com cada experiência que partilho e com cada lugar que descubro neste pequeno grande recanto do mundo. Angola tem tanto...e tanto mais para descobrir!
Sábado rumámos para norte, rumo incerto à procura de uma praia que se diz quase mítica: a praia de Santiago. Mítica pela sua beleza, que tanto ouvi falar com misterioso brilho nos olhos de quem conta histórias em noites de luar. Mítica porque em tantos e tantos meses ouvi falar dela, mas nunca soube lá ir ter ou chegar. Até hoje, em que finalmente chegou o dia certo e a incerta aventura. Assim partimos sorrindo deixando para trás a confusão de Luanda, seguindo a estrada de tristeza até ao Caxito e virando algures no meio do tempo e da estrada em direcção ao mar a oeste. Seguimos por mais estrada em caminhos de pó. Imenso pó como nevoeiro denso e feito de tão leve poeira, como se fosse apenas vapor de terra. O horizonte indistinto aos poucos foi aparecendo, como se o próprio mar fosse o sol em cada aurora. Os nossos olhares curiosos presos em crescente ansiedade, tentando olhar mais à frente, apressando o deslumbramento. Eis então que a encontrámos, pouco depois, com o mesmo desejo de quem encontra um oásis no meio do deserto. E que linda é a praia de Santiago!
Praia deserta aos nossos olhos, de imensa areia branca e mais suave que o mar. E na areia branca brilham vivas inúmeras estrelas do mar. E no mar escuro brilha a areia branca em reflexo e um sol de meio dia perfeito. E no mesmo mar, velhos e imponentes navios gastos pelas ondas e despidos pelo tempo ali descansam perdidos e esquecidos, até à eternidade.
Certo estou que foram eles que escolheram este lugar para seu eterno repouso. Se eu fosse um navio faria certamente para aqui a minha viagem derradeira.
Ao longe perdem-se na vista muitos outros barcos mudos, junto à praia que nos parece interminável. Umas poucas casas ao longe e outras mais perto de nós, das quais não se distingue nem sombra nem movimento. Para trás ficaram as dunas e um mar de planície que separa a praia do resto do mundo. À nossa frente apenas a calma e a serenidade de um mar sem fim, que nos contagia com as suas próprias emoções.
O silêncio ali é cortado apenas pelas nossas vozes. Apenas nós. E nem o som das vagas ondas se distingue no silêncio daquela praia. Naquela praia, só nós e o tempo que passou.

6.2.08

Onde o Rio se sente Mar



Bico do Rio Kwanza. Um braço de areia branca que adia e suaviza o confronto inevitável entre o imenso rio e o mais imenso mar. Foi esse o nosso feliz destino no passado fim-de-semana. Penso que já era esse o nosso destino, mesmo antes de o sabermos... Tem sido assim em tudo o que acontece: simplesmente tudo o que acontece é porque fazemos acontecer.
Foi até decisão de última hora, de um último instante para uma viagem inadiável. Isto porque se disse que era uma espécie de santuário de tartarugas e tal, e era agora o momento e ali o sítio certo para as ver no seu demorado ciclo de vida: criando vida. E fomos assim a tempo de dizer "vamos lá!" e comprar e arranjar tudo o mais que precisávamos para dois dias bem diferentes. Incluindo tendas. A verdade é que com toda a vontade e grandes amigos conseguimos tudo. E querer foi mesmo poder. Aconteceu.
A verdade também é que a princípio nem sabíamos o caminho. Só mais ou menos… Fomos num confiante "- Iá, acho que é por ali!", mas foi mesmo assim e por isso mesmo uma viagem magnífica. E já quase no fim, no “estamos quase lá!”, os nossos jipes enterraram-se parcialmente na areia quente, querendo ficar mesmo ali. Pensámos sorrindo. Olhámos para o horizonte e convencemo-nos a chegar mais à frente. "- Lá ao longe, mais perto!" Lá mesmo onde o rio se confunde no mar. E com a mesma e renovada amizade e ainda maior vontade, com muito calor de um sol de meio-dia e com menos ar nos pneus (grande ideia!), lá conseguimos alcançar o sítio desejado. E merecido.
A tarde passou-se assim merecida entre o mar e o rio. Entre o início do mar e o fim de um rio, numa beleza imprevista e incontável, só vivida pelas ondas daquele mar e pela corrente daquele rio. Nem sei bem qual o mais imponente. E só nós no meio, delirantes. Nós, o sol e a areia quente. E a geleira bem fresca junto ao mar. Ali ficámos assim, em frente ao mar e enfrentando as ondas até ao magnífico pôr-do-sol.


Passeio pela praia deserta. Uma tartaruga deu-nos a prova morta de que estávamos mesmo no sítio certo. Era ali! E a noite tornou-se assim inadiável ansiedade…

Montámos acampamento e aguardámos em amplos sorrisos, saboreando as estrelas e desafiando desafinados a sua distância com o som das nossas vozes e com o calor da fogueira. Almas aquecidas com um doce sabor a juventude.
Veio a noite apressada. Veio os vinhos e os queijos e os grelhados na fogueira. O gin tónico. As mesmas vozes se aqueceram e se dispersaram no silêncio harmonioso das ondas do mar. Depois, um novo passeio pela praia e sob as imensas estrelas. A luz de uma lanterna apontada pela noite e pelo mar adentro não nos deu de volta nenhum sinal de tartarugas… Desilusão? Nem por isso… Foi esta afinal a única coisa que faltou para tornar esta noite perfeita. E é tanto o mais que fica por dizer…

Adormecemos e acordámos sorrindo no dia seguinte, ao som das mesmas ondas do mesmo mar, e entregámo-nos de seguida à sua força e ao seu majestoso sabor. Continuação de um sonho, de um fim-de-semana que afinal foi mais que perfeito, e que terminou como já tantos outros, sempre nostálgico em cada inadiável regresso a Luanda. A verdade é que nem sempre o sonho termina… Este continua sempre e bem presente, como um início que agora sinto contínuo. Como o horizonte que observo em cada dia que passa. Como algo interminável, em cada sorriso que dou. Até ao infinito.

29.1.08

Além do Sul... a Porta do Tempo

Continua faltando-me o tempo. Reparo o meu tempo no presente e este já se encontra no passado. Tem sido assim, uma constante perseguição a alta velocidade. Sei que não o consigo fazer parar. - Ah... e era tão bom! Mas eis que senti que nele recuei, no passado fim-de-semana. Por entre montes e vales e grandes rochedos e floresta cerrada, cheguei à Gabela. E vejo que alguém ali conseguiu o que eu tantas vezes tenho desejado: parar no tempo, por muito tempo. Alguém. Talvez a própria natureza, que enclausura a pequena vila entre as montanhas que nem o tempo atravessa, ou mesmo a guerra que a isolou ainda mais do resto do país por anos e anos. Ou apenas a graça de Deus e dos homens que aqui souberam criar vida escondida do resto da vida e do tempo que passa. Nota-se tanto a presença dos portugueses... Como se ali ainda se vivesse antes de tudo, antes do nada. 30 anos antes. As casas, as ruas térreas, a igreja ao fundo da avenida, o mini-mercado e o café Royal, com os petiscos e a cerveja e o café caseiro servido com chávenas do melhor serviço da casa. E as pessoas que param para nos ver passar, e nos recebem na porta do tempo com um sorriso e simpatia de quem deseja que ali fiquemos por muitas mais horas. Dias até. Sim... Dá vontade.

No caminho que durou seis descansadas horas, e já bem perto do destino, algures no fim do tempo, paramos em deslumbramento nas cachoeiras do Sumbe. Um espectáculo que a mãe Natureza criou com arte desde o início de tudo, demonstrando aqui a força e a beleza infinda das suas criações. Senti-me pequeno e submisso, impotente e em incontrolável alegria e serenidade. Incrível a paz que vem com a força do rio.

Hesitando no ficar, acabamos por regressar bem tarde e pela noite dentro. E pela estrada fora nos acompanham milhões de estrelas, bem alto e bem visíveis num céu nunca antes visto, substituindo a luz da lua que hoje não veio ao nosso encontro. Regresso a Luanda a cantar, a sorrir e a sonhar meio acordado. Depois retomo renovado o meu tempo no dia seguinte. Conformado, ganhei ânimo para continuar perseguindo-o.

17.12.07

E Voei...

Como prometi a mim mesmo. Voei baixinho e feliz no sábado, revisitando a belíssima Barra do Dande, uma praia a norte de Luanda, um paraíso descoberto há uns tempos atrás e do qual já tinha muitas muitas saudades. Ou teria ele saudades minhas? Senti isso... Aliás, nem sei sequer se fui eu que o encontrei ou se foi ele que me descobriu nessa altura. E desta vez também... Enfim, foi uma mútua redescoberta num magnífico dia de sol. E de lua também.
Com a mesma lua cheguei no final do dia ao hotel, e nesse final de dia continuei voando, passando pela turbulência da noite em sono profundo. Completo.


Manhã de domingo. Despertei minh'alma na ilha do Mussulo, nas merecidas calmas e transparentes águas da contra-costa, após uma caminhada de duas horas pela areia quente da praia, quase tão ardente como o sol. Nela me deitei depois e adormeci de novo, com o murmúrio das ondas a embalar meu voo. Quase música.
Atravessámos a ilha de novo de volta à costa, e bebemos à chegada da invulgar simpatia de estranhos, que nos receberam para tomar um copo e matar a sede. Gin tónico, claro. Seguiu-se um almoço tardio ainda na ilha e um profundo corte no pé nas águas tranquilas. Nada mau, como preço a pagar. Nada mau...
Mas o magnífico pôr-do-sol cedo nos anunciou a despedida e assim me fiz à pista, meio contrariado. Mas aterrei feliz deste voo. O último deste ano.
Entretanto faltam cinco dias para voar de novo, e será dessa vez bem além do sonho.
Será voar para a minha ansiosa realidade.

13.11.07

Tanto, mas tanto...

É tanto o que tenho para dizer, para contar.... Seriam precisas mais de mil palavras.
Mas afinal eu sei que apenas é necessária uma: Apaixonante!
Adorei o Lubango. Amei. A antiga Sá da Bandeira invadiu-me a alma e o coração de uma forma que nem eu sei explicar. Foi tão intensamente forte! Compreendo agora a paixão que Angola transmite, a quem aqui veio e ficou, ou a quem veio para ficar. Compreendo agora que Angola não é só Luanda, felizmente! Aliás, Luanda não é Angola. Ponto.
Mas vou começar pelo princípio: Sábado, 4 horas da manhã, Aeroporto 4 de Fevereiro em Luanda - Voos domésticos. Fico desiludido porque afinal o aeroporto nem é mau de todo. Tem sala de espera, com ar condicionado e um bar. Bom ar. Estranho, tinham-me dito tão mal! Seguiram-se aqui 4 horas de ansiedade e de sono pelo avião que só partiu depois das 8 da manhã. Outra desilusão: o avião afinal era novo!?! Assim não! Eram condições a mais. Inesperadas! Mas o destino que me esperava era Lubango. Ainda mais inesperado.
Chegamos lá a meio da manhã. Tarde. Longa se torna a espera até todos estarmos reunidos e partir enfim para uma casa que teríamos ainda de procurar... E procurámos.
Lubango fica num vale, entre montanhas. A sensação que nos dá é de que estamos em Portugal, numa vila serrana qualquer, nas Beiras. Protegido e escondido entre as montanhas, como se qualquer chegada aqui fosse uma grande descoberta para quem a encontra. Fascínio quase irreal.
As ruas largas limpas e decoradas por casas baixas e coloridas. As pessoas. As crianças brincando na rua, em mistura de cores numa única cultura. Sem raças nem distinções. Os edifícios principais, coloniais e monumentais que surgem na ampla praça da cidade, com fontes luminosas entre os arrumados passeios e as árvores de fruto. Jardins. Tudo isto me dá a perfeita sensação de que descobri, encontrei Portugal em Angola. E encontrei-me a mim mesmo também. Sim.

Chegamos enfim à casa. Encontrámo-la por fim. Enorme casa na serra. Na Senhora do Monte, com uma grande varanda sobre toda a cidade. Local de contemplação. Descanso aí a vista e também o corpo, da viagem e da ansiedade. Respiro um pouco então… de emoção. Ainda e depois. Irrealidade e liberdade.
Subimos à tarde pela serra, nove pessoas com uma “Hiace” (aqui lê-se tal e qual como se escreve) por montes e vales e rochas, até à mãe das contemplações. A Tundavala. A Tundavala é uma fenda da mãe natureza, a dois mil metros de altitude, e que nos assombra com uma visão estonteante. Vertiginosa para os sentidos. Silêncio. Calma. Religioso até… É um corte quase perfeito na rocha, a direito e a pique, por dois mil metros. Lá em baixo, muito baixo, até onde a vista pode alcançar, é o perfeito deslumbramento. O horizonte aos nossos pés, bem lá em baixo. Incrível!


O dia tornou-se curto, muito curto, com a noite que chegou apressada. Jantamos em harmonia no Huíla Café, bem no meio da cidade e respiramos mais um pouco, em quase suspiros de olhos fechados. É tão bom o nosso sentir… E a ansiedade continuava desperta em nós, por mais um dia, mais e muitos momentos de deslumbramento.
No dia seguinte seguimos cedo o caminho longo para o mar, em direcção ao Namibe. Antes paramos para redenção no Cristo Rei, que abraça toda a cidade do alto da serra. E que desejo o meu, de a abraçar também!


Continuamos depois a viagem pela estrada quase deserta, chegando pouco depois à Serra da Leba. Serpente que desce a colina em perfeita comunhão. Sim, a foto do post anterior… mais palavras para quê?
Depois da serra a estrada deserta chega ao deserto. Imponente, mesmo. Paisagem quase lunar, e bem mais perto do sol. Do céu! De mim… Beleza pura, sensação de liberdade. Vontade de estender os braços e gritar bem alto os nossos sonhos e desejos. Fascinante. Silêncio de novo, com olhos bem abertos de contemplação. Inesquecível.

Chegamos ao Namibe. Cidade calma, arrumada e limpa, bem junto à praia. Com ar de praia. Linda. Mergulhamos e bebemos um pouco mais desta sensação de estar tão longe de tudo, e ao mesmo tempo tão perto de nós. Um almoço, um passeio pelas praias ali perto, um sol que se esconde depois entre as nuvens. Um adeus de repente, um regresso prometido. Voltamos enfim ao Lubango, revisitando o deserto que o sol escolheu para dormir.
A noite trouxe as estrelas que nos fizeram companhia. Testemunhas. E tantas estrelas! O céu inteiro! A elas pedi desejos eternos, outros fugazes, mas desejos sinceros. E na varanda de casa me fui perdendo, ou encontrando, inspirando toda a cidade que dorme aos meus pés. Visão presente, em passado e futuro reunidos. Começo assim a sonhar ainda antes de adormecer. Adormeço depois a sorrir. Cansado, mas a sorrir.

Segunda-feira foi dia de regresso. Atribulado e triste pelas sensações que ficam em nós mas que se deixam de viver, assim. Não só pelo que se deixa e se viveu para trás, mas sobretudo pelo regresso a Luanda, pelo que se reencontra e que aos nossos olhos nos parece ainda mais triste e degradante. Choveu no regresso, como se Lubango chorasse o nosso adeus, tal como nós choramos a nossa despedida, como o final das emoções vividas. A vontade era de ficar… Lubango. Mão no peito, olhar no infinito. Mais umas horas, uns dias, quem sabe. A vontade é de regressar, por mais uns dias, umas semanas, talvez. A vontade real é talvez de ir e ficar. Vida inteira, quem sabe. Fica a vontade.

Sim, foram momentos vividos que ficarão em mim para sempre. Sim, foi um deslumbramento para a vida e que estará sempre presente. Sim, para sempre. Ficaria lá para sempre. Quem sabe? Só Deus sabe…

Bem, cheguei bem perto das mil palavras afinal... E voltando de novo ao resumo inicial, preciso afinal de mais duas palavras: Mágico. E Eterno.

Blog Directory - Blogged