Difícil não é sentir a falta de quem nos faz falta.
É pensar no tempo que falta, no tempo que não volta e sufoca, e nas voltas da vida que o tempo nos dá. Fica a esperança de que o tempo aqui me sorria e me traga a vida de volta.
E tem sorrido...


26.9.07

Dia de Atraso

Acordo bem cedo e meio dormido para chegar a horas a uma reunião que marquei de véspera, para as 8 da manhã. Chego à empresa e nada. Ninguém. Começou ás 10. Espero depois pelas 11 horas combinadas com alguém que me diz quando lhe telefono que já está a caminho. Espero e nada. Ninguém. Só depois de almoço. Vou almoçar e volto mais cedo para esperar por esse alguém que não vem nem atende o telefone. Nada. Só ás 15. Dou depois por mim a fazer o que nao me compete nem me agrada, suando e carregando computadores entre pisos, pois espero por outro alguém que o faria e nada. Já não está ninguém. Só eu.
Dou pela noite chegar e entro por ela fazendo à pressa o trabalho que entretanto esperava por mim na secretária. Esperou o dia todo, desde a manhã.
Mais tarde tocou o telefone e hesitei no convite. Hesitei muito, mas deixei a minha saúde mental decidir e acabei por aceitar. Desliguei o computador e apressei-me para não chegar atrasado. Não gosto de o fazer. Pouco depois me renovo e descanso numa ceia em óptima companhia, ouvindo Tito Paris no Miami Beach. Ao vivo, ele e eu também.
Mas o tempo, esse, chega sempre à mesma hora. E chegou sem atraso o tempo de dormir e de pensar em mais um dia que passou e mais outros tantos que me faltam. Penso no dia de amanhã enquanto não consigo adormecer e faço um esforço adicional para o conseguir, concentrando-me no meu respirar que vai acalmando aos poucos.
Tem de ser, P.! Amanhã não posso chegar atrasado.

24.9.07

Rumo ao Norte

Saímos de Luanda já a manhã era tarde, por volta da mesma hora em que o sol decidiu aparecer. Era meio-dia e tínhamos meio dia pela frente. Seguimos de carro por entre estradas de miséria e musseques de gente e lixo de mais gente, caindo e ensombrando os buracos do caminho. Passamos sobre rios parados imundos e coloridos pelo acumular dos detritos, das sobras do que sobra dos musseques que nasceram mortos nas suas margens. As crianças vão brincando sozinhas escondidas na neblina de um cheiro ardido da lixeira onde vivem. Vi a maior das pobrezas da vida.
Uma vez passando o Cacuaco, a miséria dá lugar à beleza da paisagem, que une através da estrada a terra vermelha a nascente e o mar azul a poente. Surgem os imbondeiros e as palmeiras e os coqueiros e mangais, aqui e ali, em verde esperança, salpicando o horizonte. Mas também aqui a pobreza reaparece e nos acompanha inquietante na viagem, para que não nos deixemos de lembrar onde estamos, ou para nos fazer ver que aqui nunca há sonho sem pesadelo. Nunca. Mais lixo e quase casas e mais gente que nem é gente, vivendo em sobrevivência.
Deixamos a estrada principal que segue para o Caxito e viramos à esquerda até ao litoral, rumo ao mar e ao destino planeado antes na partida: A Barra do Dande.
Andámos 60 Km desde que saímos de Luanda, demorando-nos no percurso por quase duas horas, detidos pelo horror contido do trânsito e da paisagem e pelos buracos que fazem a estrada. No entanto, tudo muda. Chegando à Barra do Dande, e depois da nova ponte que liga a aldeia à outra margem do rio encontramos enfim uma praia sem fim. Deixei-me encontrar por um paraíso selvagem que me ilumina os olhos bem mais que a ténue luz do sol desse dia. E estava um dia quente e calmo, igual ao imenso mar turvo que apareceu majestoso à minha frente. Ao longe, pela praia e até onde a vista pode alcançar só vejo o mar, areia e coqueiros, intemporais, numa comunhão perfeita da Natureza - a única beleza infinda destas terras de Angola. Sem gente... Um resort apenas, com alguns bungalows e tendas e cabanas suspensas sobre estacas em madeira. Hum... e boa comida.
Voltámos ao final do dia. Estamos sempre dependentes da vontade do sol, seja pelo calor que nos oferece, seja pela luz que aqui precisamos para estar seguros. Bem... e também porque estava a ficar sem gasolina no carro e, apesar de aventureiro, essa não é mesmo uma experiência que quero passar por aqui.
Mas cheguei satisfeito ao meu quarto, nostálgico mas cheio de coragem para enfrentar mais uma semana. A verdade é que são mesmo estes os dias que aqui valem a pena.

21.9.07

Falta um Mês...

Apercebo-me feliz de que o tempo tem passado por mim a correr nestes últimos dias. Os dias parecem-me sempre curtos e sinto que não consigo gerir as horas dos meus dias da melhor forma. Entretanto as minhas noites caiem longas e contínuas e se alongam em insónias de preocupação e de pensamentos distantes.
Continuo cansado e nem sei se é do trabalho, das noites não dormidas ou apenas do tempo que passa. Sinto mais que será do tempo que já passei aqui. É muito. Mas entretanto vou continuando a riscar os dias que passam e a contar aqueles que faltam. Hoje, na minha parede já muito riscada chego à conclusão de que entre os riscos do tempo apenas falta um mês para matar a saudade. Um mês apenas! Ganho então mais ânimo e penso que com este tempo que foge irei riscar rapidamente os dias que faltam. Num instante, não duvido.
Contudo, há sempre os dias e as noites dos riscos que sobram e que gosto de os riscar bem devagar, recordando-os. Quanto a esses, só me resta aproveitá-los bem. E hoje vou fazer isso, claro! Enquanto sei que chove em Lisboa, irei compensar nesta noite quente as noites brancas que tenho passado em claro. Chill Out.

19.9.07

Ainda a Praia

Muito além da praia, estes dias ficaram marcados por uma música que nos invadiu, que nos arrastou e acompanhou sempre para todo o lado. Aqui e para perto de quem gostamos, tão longe que deles estamos na distância. Aqui está, pertinho do coração.

18.9.07

Praia, Doce Praia

Pareceram um dia apenas. A verdade é que foram três os dias deste fim de semana, alargado e completo mas curto nas horas e na originalidade. O que fiz? Praia, mais praia e… mais praia. Três dias de mar, sol e areia. Apenas. Ah… e lagosta, até fartar.

Sábado foi dia de Cabo Ledo, de um mar mais azul que o céu, das conversas de esplanada com as lagostas do Queirós na mesa, da viagem de ida e de regresso e da noite Naquele Lugar já em Luanda. Magnífico.

No domingo descobrimos outro paraíso, em Sangano. Antes de Cabo Ledo, uma praia que pensámos quase deserta e que se tornou numa agradável e cheia surpresa ao chegar. Cheia de tudo! Tornou-se também numa angústia e tristeza ao partir. Só saímos de noite, mas realmente não queria mesmo sair de lá nesse dia. E nunca antes disso. Queria ficar e que o tempo parasse. Queria ver o pôr do sol que é algo extraordinário por aqui... Apaixona-nos. É um jogo de cores difusas lutando entre si para ganhar o imenso céu. É o sol que se transforma em tons de laranja e visível aos nossos olhos de contemplação, e depois em vermelho vivo e num fogo que ilumina em reflexo toda a baía. O mar e os rochedos. Um céu que rouba a cor ao mar e se une, num horizonte que não se distingue entre eles, desaparecendo entre a neblina. Céu e mar indistintos. E no fim do espectáculo o sol se retira, satisfeito, em magnífica apoteose. Tudo é quase mágico... intenso.

Segunda-feira decidi descansar destes dias de praia... E então fui para a praia também. Mas desta vez nem saí de Luanda... Não era preciso. O trânsito prometia ser interminável ao final do dia, para se entrar na cidade, vindo do sul, e por isso escolhi na ilha uma praia local, e dos locais, para passar mais um dia igualmente diferente. E com muita gente! Mas bom.
A praia cansa, é verdade... Após três dias desta vida difícil estou exausto. E quase preto... por fora e um pouco por dentro também. Ok, é cansativo... mas até gosto disto.

14.9.07

Porque Hoje...

... É sexta-feira!
Ando a dar em doido com o trabalho e estou farto de dizer asneiras hoje. 'Daquelas' que nos saem da boca sem querer. E também por querer, confesso... Até apetece e sabe bem.
Porque hoje começa um fim de semana de três dias e três noites, pois é feriado segunda-feira.
Porque hoje termina uma semana com poucas horas de sono mal aproveitadas.
Porque hoje acabei por ver uma ratazana no primeiro andar da empresa, praí com uns dois metros... Hum... 1 metro... Ok, era pequenina. Mas assustei-me e disse mais uma asneira.
Porque hoje tinha tudo preparado para ir até Benguela e já não vou porque toda a gente se lembrou do mesmo e já não há hotéis vagos.
Enfim... porque hoje aqui é tudo, vou só ali beber uns gin tónicos para parar de dizer asneiras.
Volto cedo, com o ar da manhã.

12.9.07

Os Petiscos

Às vinte horas ligo para marcar mesa.
- Alô Bruno! (reparem que já digo "alô"...) Que há de petiscos hoje?
- Tem picapau, chouriço assado, morçela, salsicha, picanha, moelas...
A lista não acabava. Mas acabei eu, estranhando... - Moelas?
- Iá, moelas.
Não queria acreditar - Moelas? Como moelas?
- Estufadas.
- ... Hum... E queijo? Há queijo?
- Tem sim, Castelões.
- Bruno, mesa para seis ás nove. Prepara aí as moelas, o picapau, as moelas, o chouriço, as moelas, o queijo, o ...
- Tá bom, deixa comigo.
- Ah! E vinho! Põe vinho no ...
- Deixa comigo, iá.
E assim foi. Às nove da noite lá estávamos na esplanada da Tendinha, nos petiscos lusos. E no vinho. Tudo maravilhoso, como quase sempre. E eu que nem sabia que se encontrariam moelas por cá! E estavam divinais, a sério.
E tem sido assim, pelo menos, uma vez por semana.
Bem, mas isso foi ontem... Hoje foi diferente. Como verdade ou consequência, hoje passei o dia 'na casinha'.

10.9.07

O Casamento

Só hoje ganhei a coragem de escrever sobre este dia. A verdade é que no passado domingo não estive por cá. Ausentei-me. Deixei tudo e fui para onde não fui. Estive sempre presente onde não estive, onde não pude estar. Mas consegui e fiz que estive, com alma e coração. O meu corpo não. Mas foi como se estivesse também, olhando através de um enorme vidro, inquebrável pela imaginação.

Hoje vi as fotos e imaginei-me lá. Não me contive. Encontrei nelas um espaço quase visível entre os meus amigos, um espaço que eles mesmo guardaram para mim, para eu poder sentir-me lá. Com eles. Imaginei os risos e sorrisos, os abraços sentidos, a felicidade incontida vivida nesse dia que, como muitos outros dias convosco, não tem dia igual.

E são estes os dias mais importantes de uma vida inteira. São estes os dias recordados para sempre e que à distância se dá um valor ainda mais incalculável. Mesmo. Aqui vejo e percebo que são esses os momentos que mais sentido dão a toda a nossa existência. São os amigos e os momentos com eles vividos. É o partilhar com eles a alegria de um dia que é para um, e para todos, como família, um passo de um rumo para uma vida inteira de felicidade. E será, tenho a certeza. Irei recordar este dia para sempre pela tristeza de não ver a vossa alegria, e como um dia da minha vida que não estive presente. Um dia mais que não vivi, infelizmente.
Faço minhas as minhas palavras, únicas coisas minhas escritas e entregues nesse dia e nesse momento, para o meu melhor amigo. E para todos vocês:

'Incrivelmente longe é a distância que hoje me separa de vós. Penso e sorrio ao ver que os anos passam e nada muda. A amizade é tão grande e antiga que já se tornou rocha, e cada vez mais rocha, e indestrutível mesmo com esta nossa distância e com o passar do tempo.'

A falta que me fazem é bem maior que o tempo que resta para vos ver de novo. Aguardo ansioso.

8.9.07

Bom Dia Camaradas

“Às vezes numa pequena coisa pode-se encontrar todas as coisas grandes da vida. Não é preciso explicar muito, basta olhar...”

Esta é uma pequena frase num pequeno livro que escolhi ler. ‘Bom dia Camaradas’, de Ondjaki, é todo ele saudade de outros tempos desta Luanda. Tempos outros em que a guerra consumia a esperança do povo e a felicidade se encontrava nas pequenas coisas da vida. Memórias de escola e de rua de uma criança de sorte. Recordações do povo cubano que ainda vive por cá, presente na lembrança. Riqueza das coisas pobres.
Ao ler este livro, tenho já a sensação de o conseguir entender. Conheço quase o passado. E conheço-o observando a cidade de hoje, as ruas de hoje, as pessoas de hoje, o povo de sempre. Observo todos os dias o presente e entendo assim o passado, quase presente. Basta olhar.
E ao ler este livro, quase que se sente. Luanda.

5.9.07

A Chuva

Sete da madrugada.
Acordei do sono com a chuva a bater levemente na janela do meu quarto. Num instante sem despertar mantive os olhos bem fechados e apenas imaginei. Olhos bem fechados. Prolonguei em mim por momentos a reconfortante sensação de estar no conforto do meu quarto da minha própria casa numa manhã de um saudoso domingo de chuva. Olhos bem fechados. Imaginei que não existe pressa para levantar e senti que me poderia deixar assim ficar e ir ficando neste calmo e lento despertar dos sentidos. Olhos bem fechados. Adormeci de novo, embalado por este sabor a casa que é desejo repetido destes sonhos quase despertos no meu acordar de todos os dias.
Ah... Como é bom estar em casa!
Abre-se a porta.
- Bom dia, sim? Desculpe, sim?
Fecha-se a porta.
Confuso e desperto olho para o relógio e cedo volto à realidade. Estou em Luanda. No hotel. Olhos bem abertos. Levanto-me com uma pressa inadiável em acordar para outro dia. Olhos bem abertos. Estou atrasado!
Paro então de imaginar e também lá fora a chuva parou. Aproximo-me da embaciada janela e observo as últimas gotas que caem do céu. Choveu mesmo, mas tudo o resto foi um sonho apenas.
Ah... Bendita chuva, que hoje me levaste a casa e te demoraste a trazer de volta a Luanda. Acorda-me sempre assim! Mas olha... Se quiseres, não me tragas de volta.

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